Estudantes em fileira de carteiras escrevendo a redação durante a provaVocê já leu uma redação nota 1000 e ficou pensando: “Tá, mas o que exatamente faz esse texto ser diferente do meu?”

Essa é uma das perguntas mais inteligentes que um candidato pode fazer. E é exatamente ela que este texto vai responder, com análise frase a frase, sem enrolação.

Vamos dissecar a redação de Wellington Ribeiro, de Recife (PE), que alcançou a nota máxima no Enem 2025. O tema foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. E Wellington não apenas escreveu bem: ele montou uma argumentação cirúrgica, usou repertório com inteligência e construiu uma proposta de intervenção que a banca não tinha como ignorar.

Preparado? Então vamos linha a linha.

A redação completa de Wellington Ribeiro

Na obra “Feliz aniversário”, a escritora Clarice Lispector aborda, dentre outros aspectos, a realidade de exclusão vivenciada por grande parte dos idosos brasileiros, os quais, de acordo com a autora, só são lembrados por seus familiares em datas comemorativas. Ao transpor o viés literário, percebe-se a acentuação dessa problemática, a qual aborda a falta de perspectiva social perante ao envelhecimento existente no Brasil contemporâneo. À vista desse conceito, é ideal analisar o passado nacional e o descaso governamental como desafios para a plena longevidade da sociedade.

Convém ressaltar, a princípio, que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado, de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi construído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos em detrimento da inserção respeitosa dessa parcela da população no cotidiano brasileiro. Nesse sentido, essa atitude segregacionista mascara, há gerações, a necessidade de reverter esse revés e naturaliza, hoje, o silenciamento desenfreado dos idosos, produzindo culturalmente a ideia de inferioridade desse grupo. Assim, torna-se inegável o contínuo retrocesso da nação a cerca do reconhecimento da velhice como importante e inevitável, à medida que a manutenção de raízes históricas degradantes existe.

Ademais, é fundamental ressaltar que a negligência estatal perpetua a aversão social ao inerente envelhecimento populacional. Essa questão se intensifica, na contemporaneidade, ao passo que o Brasil não possui uma campanha nacional concreta e eficaz de estímulo à qualidade de vida da terceira idade. Tal panorama foi estudado pelo pesquisador Ruy Braga, o qual, a partir de uma perspectiva crítica voltada à realidade latino-americana, verbaliza que a ausência de um modelo assistencial inclusivo e socialmente comprometido permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade. Sob essa ótica, o posicionamento do estudioso é válido, visto que políticas públicas ineficientes possibilitam a precarização do bem-estar da terceira idade, de modo a qualificar essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação, suprimindo o seu futuro salutar. Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.

É premente, portanto, uma medida que perpetue perspectivas positivas ao envelhecimento populacional. Logo, cabe ao poder Executivo Federal, mais especificamente ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, fomentar o respeito à terceira idade. Tal ação ocorrerá por meio da criação do “Projeto Nacional Vida Feliz”, o qual engajará debates públicos, ministrados por idosos, nos 5.570 municípios brasileiros, a fim de desmistificar ideais advindos da colonização do Brasil e de protagonizar a atuação de pessoas idosas no combate direto e frontal à marginalização sofrida por elas, culminando na promoção da dignidade a essa parte da sociedade. Afinal, não é aceitável que, em um país democrático, a população envelhecida seja, como denunciado por Clarice, invisibilizada.

Por que essa redação alcançou a nota máxima?

Antes de entrar nos detalhes, entenda o seguinte: a banca do Enem não procura perfeição absoluta. Ela procura competência demonstrada em cinco dimensões ao mesmo tempo. Wellington conseguiu isso. Veja como.

Competência 1: domínio da modalidade escrita formal

Wellington escreve com vocabulário sofisticado e preciso. Repare em escolhas como:

  • “exclusão socioespacial”
  • “atitude segregacionista”
  • “silenciamento desenfreado”
  • “precarização do bem-estar”
  • “futuro salutar”

Essas não são palavras jogadas aleatoriamente para impressionar. Cada uma carrega um significado específico e está no lugar certo. Isso é domínio real da língua, não decoreba de sinônimos difíceis.

A estrutura sintática também é variada. Wellington alterna períodos mais longos, que desenvolvem o raciocínio, com frases mais curtas e incisivas, como “Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.” Esse controle do ritmo é algo que pouquíssimos candidatos demonstram.

Competência 2: repertório sociocultural pertinente e bem integrado

Aqui está um dos maiores diferenciais da redação. Wellington usa dois repertórios de naturezas distintas:

Repertório literário: A abertura com Clarice Lispector e o conto “Feliz aniversário” não é enfeite. Wellington apresenta o livro, explica o que a obra aborda e conecta isso ao tema proposto. Isso é integração de repertório. Muitos candidatos citam autores famosos sem explicar o porquê, o que a banca chama de “repertório decorativo” e não pontua bem.

Repertório acadêmico: No terceiro parágrafo, Wellington cita o pesquisador Ruy Braga e sua perspectiva crítica sobre a realidade latino-americana. Mais uma vez, ele não apenas menciona o nome: ele explica o que o pesquisador diz e por que isso é relevante para o argumento.

Essa é a diferença entre citar e usar. A banca quer que você use o repertório como ferramenta de argumentação, não como decoração.

Competência 3: argumentação consistente e progressão lógica

A estrutura argumentativa de Wellington segue uma lógica impecável:

  1. Introdução: apresenta o problema (exclusão dos idosos) e anuncia os dois eixos de análise (passado histórico e descaso governamental).
  2. Primeiro desenvolvimento: explora a raiz histórica do problema, conectando a Lei dos Sexagenários à naturalização atual do preconceito contra idosos.
  3. Segundo desenvolvimento: analisa o presente, mostrando como a negligência estatal perpetua o problema.
  4. Conclusão: propõe uma solução detalhada e coerente com tudo que foi dito.

Perceba que cada parágrafo avança a argumentação. Nada se repete. Nada fica solto. Isso é uma progressão lógica de verdade.

A conexão entre os parágrafos também é cuidadosa. “Diante desse cenário”, “Ademais” e “É premente, portanto” não são apenas conectivos bonitos: eles sinalizam ao leitor exatamente o que está acontecendo no texto.

Competência 4: coesão e coerência

Wellington mantém o foco no tema do início ao fim. Não há desvios, não há contradições e não há parágrafos que existem apenas para encher linguiça.

Os mecanismos de coesão são sofisticados: uso de pronomes relativos (“os quais”, “a qual”), retomadas lexicais (“essa parcela”, “esse grupo”, “essa faixa etária”) e conectivos de diferentes tipos (adição, consequência, conclusão).

Tudo isso cria um texto que flui naturalmente, sem solavancos.

Competência 5: proposta de intervenção detalhada

A conclusão é a parte em que muitas redações perdem pontos preciosos. Wellington acerta em cheio nos quatro elementos que a banca exige:

  • Agente: Poder Executivo Federal, pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
  • Ação: Criação do “Projeto Nacional Vida Feliz”.
  • Meio: Debates públicos ministrados por idosos nos 5.570 municípios.
  • Finalidade: Desmistificar preconceitos e promover a dignidade dos idosos.

Detalhe importante: o número 5.570 municípios não é informação aleatória. Ele demonstra que o candidato conhece a realidade do país e torna a proposta mais concreta e crível.

O que diferencia essa redação de uma nota 800 ou 900?

Essa é a pergunta que vale ouro. Veja a comparação:

Uma redação nota 800 geralmente:

  • Cita repertório sem explicar a relevância.
  • Tem proposta de intervenção genérica (“o governo deve criar políticas públicas”).
  • Usa conectivos repetitivos (“além disso”, “portanto”, “sendo assim”).
  • Tem argumentos válidos, mas que não se conectam com fluidez.

Uma redação nota 900 geralmente:

  • Usa bem o repertório e tem boa argumentação.
  • Peca em algum detalhe da proposta (falta agente ou meio específico).
  • Tem um ou dois desvios gramaticais mais sérios.
  • A progressão lógica tem alguma falha sutil.

A redação nota 1000, como a de Wellington:

  • Usa repertório como ferramenta, não como enfeite.
  • Tem proposta de intervenção com todos os elementos e ainda assim soa natural, conectado ao posicionamento e argumentos selecionados para a defesa da tese.
  • Demonstra domínio real da língua, não apenas ausência de erros.
  • Mantém coerência e progressão do primeiro ao último parágrafo.

Atenção: até redações nota 1000 têm deslizes

Esse ponto é fundamental para você não desenvolver uma visão distorcida de perfeição.

A redação de Wellington tem dois erros gramaticais que passaram pela banca:

Perante ao envelhecimento” (primeiro parágrafo)
O correto é “perante o envelhecimento”. A preposição “perante” não exige a preposição “a” depois dela, então a crase não se aplica e o “ao” está incorreto.

A cerca do reconhecimento” (segundo parágrafo)
O correto é “acerca do reconhecimento”. “Acerca de” é locução prepositiva que significa “sobre” e se escreve junto. “A cerca” significa literalmente “próximo a uma cerca”.

Por que ele tirou 1000 mesmo assim? Porque a banca avalia o conjunto da obra. Dois deslizes pontuais não apagam quatro parágrafos de argumentação consistente, repertório bem integrado e proposta detalhada. A nota 1000 não exige texto sem imperfeições. Exige texto com competências claramente demonstradas.

Isso não é licença para errar à vontade. É para você entender que um erro não destrói sua redação. O que destrói é a ausência de argumento, de repertório e de proposta.

O que você pode copiar dessa redação agora mesmo

Copiar o estilo, não o conteúdo. Plagiar redações é falta grave e anula sua prova. Mas aprender com a estrutura é obrigação de todo candidato inteligente.

Anote esses três aprendizados práticos:

  1. Integre o repertório: sempre que citar um autor, obra ou pesquisador, explique o que ele diz e conecte isso ao seu argumento.
  2. Seja específico na proposta: nada de “o governo deve agir”. Diga qual governo, por qual órgão, com qual ação e com qual objetivo.
  3. Varie os conectivos: saia do “além disso” e do “portanto” e explore “à vista disso”, “é premente”, “sob essa ótica”, “ao passo que”.

A nota 1000 não é sorte, é método

Wellington Ribeiro não tirou 1000 porque teve sorte com o tema ou porque nasceu sabendo escrever. Ele tirou 1000 porque dominou a estrutura, estudou repertório com profundidade e treinou a proposta de intervenção até ela ficar afiada.

Você pode fazer o mesmo.

Pegue essa análise, releia a redação do Wellington com atenção e, depois, escreva a sua própria sobre um tema atual. Compare os dois textos com honestidade. Esse exercício simples vai te mostrar exatamente onde você precisa evoluir.

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